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terça-feira, 5 de setembro de 2017

"A Ilha do Mal" (2017)

A Ilha do Mal (Land of Smiles, EUA/Tailândia/Austria, 2017)
Diretor: Bradley Stryker
Roteirista: Bradley Stryker
Produtorxs: Bradley Stryker, Caitlin Cromwell
Elenco: Alexandra Turshen, Keenan Henson, Caitlin Cromwell, Bradley Stryker, Amie Barsky, Krista Donargo, Brandon Nagle, Leandra Ramm, Kate Stone, Jen Burry, Paul C. Kelly, Charisse Bellante, Luke Ditella.
SINOPSE: Uma jovem mochileira é atraída pelo paraíso do terceiro mundo da Tailândia à procura de sua melhor amiga sequestrada e, sem saber, ela se torna o objeto da obsessão de um sociopata.









Utilizar um país “de terceiro mundo” como locação para um filme de terror não é
novidade no cinema de Hollywood. Basta lembrarmos de “Turistas” que usou as terras tupiniquins como território livre para tráfico de órgãos e assassinatos de americanos. Agora é a vez da infame Tailândia virar chacota dos estadunidenses, que aqui mantêm o hábito de tratar países fora do eixo norte-americano e centro-europeu como terras de ninguém, panos de fundo meramente exóticos e violentos para suas narrativas. 
Em “Ilha do Mal”, Abby é uma jovem adulta que, após flagrar seu namorado a traindo, e brigar com sua melhor amiga Penny, decide ir atrás dela na Tailândia, onde logo percebe que sua parceira desapareceu. De repente, ela começa a receber estranhas mensagens e vídeos envolvendo um palhaço que tortura Penny e parece querer propor um perigoso jogo para Abby e seus colegas tailandeses, para que Penny continue viva.
A premissa genérica acima só não é pior que as decisões tomadas ao longo do filme pelas personagens, que parecem levar a sério a convenção que aponta um baixo Q.I. para  papeis de filmes do gênero.  Aliás, o filme todo é uma falta de propósito ambulante. O elenco é fraquíssimo, quase amador, e tenta de todas as formas possíveis passar uma seriedade que não convence, que em vez disso, acaba aborrecendo o espectador com frequência. A seriedade também é pretendida pelo diretor-roteirista Bradley Stryker quando busca talvez uma significação complexa para a montagem psicodélica durante as várias festas que ocorrem no filme, sem, no entanto, um objetivo aparente na trama. Outra escolha duvidosa da direção foi a opção por um found footage misturado com takes filmados com câmera na mão e outros filmados convencionalmente, denotando clara falta de técnica e de sentido em seu roteiro, que em outras mãos, poderia ousar muito mais, ou até mesmo investir num humor negro que vestiria muito bem a proposta do turismo-macabro-com-palhaços.
Apostando na atual moda dos palhaços assassinos, o roteiro não explora bem o porquê do assassino/stalker se vestir dessa maneira, parecendo apenas querer pegar carona na tendência do momento, e enfiando lá pelo terceiro ato uma rave com várias pessoas vestidas de palhaço, sem, mais uma vez, apresentar qualquer motivação para inserção na trama, enchendo linguiça como poucas vezes vistas.
Curiosamente, se há alguma qualidade no longa-metragem (primeiro dirigido por Stryker, ator com mais de trinta créditos no currículo) é justamente o personagem australiano Dale (interpretado por, vejam só, o próprio Stryker), que traz vida e algum bom humor para o arrastado enredo, demonstrando que alguns artistas talvez devessem se manter apenas em frente às câmeras…


sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Colinas de Sangue (2009)

Colinas de Sangue (The Hills Run Red, EUA/Bulgaria, 2009)
Diretor: Dave Parker
Elenco: Sophie Monk (Alexa), Tad Hilgenbrink (Tyler), William Sadler (Concannon), Janet Montgomery (Serina), Alex Wyndham (Lalo), Ewan Bailey (Sonny), Danko Jordanov (Babyface), Mike Straub (Gabe), Hristo Mitzkov (Jimbo), Raicho Vasilev (Babyface como ator), Itai Diakov (Babyface jovem).
SINOPSE: Você conhece a história. Aquela sobre a festa mais violenta e sanguinolenta de todas; aquela feita nos anos 80, mas misteriosamente perdida. Avance no tempo até hoje: jovens fãs do terror buscam por um lugar secreto onde o filme foi rodado, esperando encontrar pelas históricas cenas. Mas o que eles descobrem é que aquele épico banho de sangue é muito mais que um filme. É real. E agora eles são as mais novas estrelas "contratadas". © Warner Bros







O que o leitor procura quando vai assistir a um filme de horror de maneira descompromissada, buscando apenas diversão? Violência com muito gore e efeitos de maquiagem práticos, nudez gratuita, humor negro, tensão, mistério, um vilão original? Se isso bastar, então Colinas de Sangue, longa de 2009 distribuído diretamente para vídeo, cumpre bem o seu propósito de entreter o espectador, mesmo aquele menos chegado às convenções de gênero. Curiosamente, é justamente quando o longa tenta bancar o pretensioso é que se dá mal. Mas falemos disso mais adiante.

A ideia do longa, originada dois anos antes de sua concepção, a partir de um argumento original do diretor Dave Parker e até mesmo de um trailer falso, esperou um longo tempo até que a Warner, usando seu "selo independente" Warner Premiere (também responsável por Contos do Dia das Bruxas) embarcou no projeto e juntamente com a Dark Castle (produtora responsável por filmes como A Casa de Cera e Navio Fantasma) levantou um pequeno orçamento e contratou um elenco majoritariamente americano para a produção (o filme foi filmado na Bulgária) que teve contribuições no roteiro de David J. Schow (O Corvo, O Massacre da Serra Elétrica 3), John Dombrow (Vespas Assassinas) e John Carchietta.


De início bastante promissor e até mesmo empolgante, a trama segue o obstinado Tyler (Hilgenbrink), um jovem fanático por filmes de horror, em especial de um longa independente dos anos 80 que ganhou fama de amaldiçoado após ser banido nos cinemas após sua única exibição, devido ao seu conteúdo gráfico, junto com esse fato aparentemente todos da equipe e elenco, incluindo o diretor Concannon (Sadler), sumiram do mapa, e nenhuma cópia nunca foi encontrada. Tyler parte então em busca de Alexa (Monk), filha do diretor do filme perdido e que estava presente no trailer do filme, e descobre que a tal moça é stripper em um boate e viciada em drogas. Como que por milagre, o rapaz não só tira a moça daquela vida, como também a convence a partir com ele, sua namorada Serina (Montgomery) e seu melhor amigo fura-olho, Lalo (Wyndham) numa viagem com destino às locações onde ocorreram as gravações do filme maldito. Chegando lá, claro, algo indica que o filme não está finalizado e os jovens serão as mais novas estrelas a morrer pela arte.

Ao mesmo tempo em que o roteiro é esperto ao subverter algumas convenções de gênero, como aquela do assassino que nunca morre, mesmo quando atingido, ou outra em que um dos heróis tenta convencer o vilão, fingindo ser seu amigo; acaba demonstrando extrema fragilidade em vários pontos, principalmente a partir dos 60 minutos de projeção, quando se transforma numa confusa salada narrativa sem um pingo de ritmo. Pior: Ainda exibe enormes rombos de lógica interna e ainda tenta explicá-los através de flashbacks desnecessários e diálogos expositivos, que só não são mais constrangedores graças ao talento do ator William Sadler. Vale ainda a menção desonrosa à inserção, ainda que pontual, de um CGI grotescamente mal feito.



Entretanto, antes de desandar completamente o filme apresenta boas surpresas num elenco homogeneamente bom, exceto, talvez, pelo protagonista Hilgenbrink, que se revela um canastrão com suas caras e bocas e uma risada extremamente forçada. Por outro lado merece destaque a ótima sacada que ocorre na cena do acampamento. Pena que a partir desse ponto, pouca coisa consiga manter o interesse no longa, uma vez que aquilo que era até então um passatempo tenso e bem construído, se transforma num pretensioso metafilme que não chega a lugar algum. Se o espectador ignorar tais pontos e embarcar na divertida viagem, não deve se decepcionar, ainda que fique um sentimento de que o resultado poderia ser infinitamente superior caso o longa seguisse a premissa inicial.






Curiosidades:
  • Cinco latões com sangue falso, de 55 litros cada, foram usados na cena do trailer inserido no filme que mostra, literalmente, as colinas correndo sangue;
  • O diretor Dave Parker não conheceu o elenco até dois dias antes de começarem as filmagens;
  • O cenário da fazenda foi reaproveitado de outro filme;

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Megan is Missing

Megan is Missing (EUA, 2011)
Diretor: Michael Goi
Elenco: Amber Perkins (Amy Herman), Rachel Quinn (Megan Stewart), Dean Waite (Josh), Jael Elizabeth Steinmeyer (Lexie), Kara Wang (Kathy), Brittany Hingle (Chelsea), Carolina Sabate (Angie), April Stewart (Joyce Stewart), Bill Frazier (John Herman), Tammy Klein (Louise Herman), Lauren Leah Mitchell (Callie Daniels).
SINOPSE: Drama ficcional baseado em casos reais, sobre duas amigas adolescentes que se deparam com um "predador virtual".







"Megan e Amy são melhores amigas. Elas dividem segredos, batem papo com caras na internet. E dentro de alguns dias, elas nunca mais serão vistas."


Uma coisa que sempre me perturbou (embora felizmente nunca tenha passado por isso) é o desaparecimento. Dizem que a dúvida sobre o estado da pessoa perdida é pior do que a eventual certeza de sua morte. Não sei, mas o fato é que justamente por sua ambígua natureza, o desaparecimento de pessoas sempre foi um filão muito explorado na ficção em novelas televisivas, filmes e livros. Com o avanço assustador e global da internet, ficou claro que os perigos e os benefícios da realidade se estenderiam também no mundo virtual, afinal, apesar de parecer óbvio, quando você conhece alguém pela grande rede você nunca sabe quem de fato ela é... até conhecê-la pessoalmente, gerando, é claro, um grande risco associado ao potencial encontro. E é justamente a partir dessa ideia que parte o segundo longa de Michael Goi (que só havia assinado a direção anteriormente do obscuríssimo drama erótico Voyeur (1999)) e é mais conhecido pelos seus trabalhos como diretor de fotografia (do filme Almas Condenadas (2006) e das séries História de Horror Americana e My Name is Earl).

O longa, filmado usando a técnica do found footage, se constrói desde o início afirmando ser uma compilação de arquivos de vídeo pessoais (primeira parte do filme) e filmagens encontradas pela polícia (desfecho do filme), e conta a história das melhores amigas Megan (Rachel Quinn) e Amy (Amber Perkins), de 14 e 13 anos respectivamente. A primeira, garota popular, sem um círculo familiar sólido e precocemente envolvida com sexo e drogas. A segunda, tímida, excluída e com família bem estruturada. Um par aparentemente improvável, as duas vivem sua amizade justamente em função do apoio mútuo e daquilo que sobra em uma e falta na outra.

Procurando estabelecer justamente a dinâmica entre as personagens, o filme passa dois terços de sua duração em seu desenvolvimento e só no final acompanhamos o destino das protagonistas. E, se esse modelo narrativo parece, a princípio, interessante e o uso do recurso das filmagens encontradas busca evocar algum realismo, a qualidade nas atuações vai de ruim a péssima, e esse aspecto em vários momentos joga o espectador para fora da trama, justamente o contrário do que seria pretendido. Com a intenção de soar como um "aviso" para as/os adolescentes que potencialmente estão mais sujeitos ao risco apresentado no filme, o diretor e roteirista Goi constrói várias situações inverossímeis que mais uma vez prejudicam o andamento do filme. Além disso (o próximo parágrafo apresenta spoilers):

O diretor também toma a decisão duvidosa de gerar espaço no final do filme basicamente apenas para a personagem Amy, como se Megan não merecesse nossa atenção no sofrimento que passa, ou talvez para criar um artifício para que nos identifiquemos apenas com a amiga mais vulnerável, e como se a outra não importasse em nada dentro daquela narrativa. Também é extremamente incoerente a facilidade com que Amy se torna presa do maníaco virtual, tendo em vista que o desaparecimento de sua amiga deveria ter gerado monitoramento policial ou pelo menos maior vigilância de seus pais que já eram superprotetores. (fim dos spoilers)

Com tudo isso, na intenção apaixonada de criar um filme com caráter de alerta, Michael Goi pisou na bola diversas vezes em aspectos técnicos e narrativos e criou apenas um produto pseudo-educativo com algumas cenas inquietantes. E é só! Com algumas mudanças, principalmente no elenco, o filme poderia se tornar referência no gênero. Talvez na próxima tentativa...


quinta-feira, 6 de março de 2014

À Meia-noite levarei sua alma

À Meia-noite Levarei sua Alma (Brasil, 1964)
Diretor: José Mojica Marins
Elenco: José Mojica Marins (Zé do Caixão/Josefel Zanatas), Magda Mei (Terezinha), Nivaldo Lima (Antonio), Valeria Vasquez (Lenita), Ilídio Martins Simões (Dr. Rodolfo (como Ilídio Martins)), Antonio Marins (Seu Francisco), Laércio Laurelli (voz dublada de Zé do Caixão), Arildo Iruam, Graveto, Robinson Aielo, Avelino Morais, Luana, Leandro Vieira, Mário Lima.
SINOPSE: O cruel e sádico coveiro Zé do Caixão, temido e odiado pelos moradores de uma cidadezinha do interior está obcecado em conseguir gerar o filho perfeito, aquele que possa dar continuidade ao seu sangue. A sua mulher não consegue engravidar e ele acredita que a namorada do seu melhor amigo é a mulher ideal que procura. Violada por Zé do Caixão, a moça quer cometer suicídio para regressar do mundo dos mortos e levar a alma daquele que a violou. A saga de Zé do Caixão continuará em Esta noite encarnarei no teu cadáver.






Zé do Caixão é um agente funerário de um pequeno vilarejo interiorano no Brasil, sua vida gira em torno de gerar o filho perfeito, já que do seu ponto de vista é a única maneira de obter a imortalidade, já que despreza toda e qualquer crença no invisível e no sobrenatural. Enquanto busca seu objetivo, desafia a fé católica, causa medo no povo da cidade e deixa um rastro de violência e mortes.



Se hoje a repugnância moral do personagem Zé do Caixão não tem o mesmo efeito, devido à decadência da maioria das religiões, e ao fato de o próprio Zé ter se tornado uma caricatura não só fora do cinema, mas no próprio universo diegético, devido aos seus exageros de interpretação, é certo que se olharmos tomando o ponto de vista da época, é possível imaginar o enorme impacto que À Meia-noite levarei sua alma teve no público que foi assistir ao filme nos cinemas.



Com Mojica demonstrando coragem e inovação ao construir um vilão que se apresenta
completamente avesso às religiões e à alienação do povo, é curioso ao mesmo tempo constatar que o motto de Zé do Caixão não serve para incitar uma libertação popular, já que o sujeito causa completo medo no vilarejo em que mora, e além disso é extremamente violento e machista, já que não hesita em torturar a mulher quando esta não consegue lhe dar filhos, que é o objetivo principal de Zé durante toda a sua saga, a continuidade do sangue, e da mesma maneira, também assassina o melhor amigo e violenta a noiva dele, sendo perseguido no desfecho pelos seus fantasmas, revelando finalmente o aspecto sobrenatural que o filme não havia mostrado até então. 
Muito hábil ao se aproximar da estética americana ao ter um cuidado especial na construção de cenários e suspense, mas ao mesmo tempo não deixando de lado a cultura e as crendices nacionais, Mojica cria genuinamente o primeiro horror nacional, bem montado, apesar de todas as dificuldades financeiras, e que se torna fundamental para qualquer um que queira entender a história do cinema brasileiro, ainda que pouco valorizado e explorado neste gênero tão fantástico (com o perdão do trocadilho).

domingo, 22 de dezembro de 2013

The Woman - Nem todo monstro vive na selva

The Woman - Nem todo monstro vive na selva (The Woman, EUA, 2011)
Diretor: Lucky McKee
Elenco: Pollyanna McIntosh (A Mulher), Brandon Gerald Fuller (Bebê), Lauren Ashley Carter (Peggy Cleek), Chris Krzykowski (Roger), Sean Bridgers (Chris Cleek), Angela Bettis (Belle Cleek), Marcia Bennett (Deana), Shyla Molhunsen (Darlin' Cleek), Zach Rand (Brian Cleek), Carlee Baker (Genevieve Raton)
SINOPSE: Quando um famoso advogado do interior decide capturar uma mulher selvagem que encontrou na mata, o último membro de um violento clã que dominou a costa Norte dos EUA por décadas, e tenta civilizá-la, ele coloca a vida de toda sua família em risco.











O mais recente trabalho do diretor Lucky McKee (desconsiderando o recém-exibido em Toronto, All Cheerleaders Die), é de uma singularidade impressionante. Trabalha com tantos temas e possui uma condução tão estranha que se torna difícil tomar uma posição ao final da trama. Misoginia, aparências familiares e feminismo são alguns dos temas que o longa se propõe a analisar. Vindo de alguns trabalhos menores, McKee volta a investir num pesado drama (grafica e psicologicamente) que apresenta a princípio um plot bastante óbvio, ainda que nada convencional.
‭As evidências de um conto feminista estão por todo o filme. Repare, por exemplo, como Mckee nos apresenta primeiramente à mulher, e não à família afetada por ela, e como a primeira integrante da família a ser apresentada, a filha mais velha Peggy, está em uma posição superior no plano quando é incomodada por um pretendente adolescente, que se mostra um babaca, é claro. Aliás, logo em seguida somos apresentados ao principal antagonista da trama, o advogado inescrupuloso, mas bem-sucedido Chris Cleek; ele, apesar de também estar em uma posição superior dentro do quadro, é apresentado logo de cara como aquilo que é: Um sujeito machista, que não dá a mínima para a esposa submissa ou para as preocupações “fúteis” da filha. Aliás, é também interessante mencionar que todos os personagens masculinos do filme, mesmo os mais jovens, são mostrados como seres desprezíveis, desprovidos de qualquer moral ou empatia, e como as mulheres são postas em uma posição de inferioridade e submissão, e esses extremos de caracterização que o filme aborda são necessários devido ao caráter alegórico que o filme assume. As mulheres que fogem da generalização acima, incluindo a selvagem e a professora de Peggy, são logo alvos da brutalidade do universo androcêntrico de Mckee.


‭

Exemplificando o caráter machão de Chris, temos a óbvia, porém interessante referência às armas e à caça, símbolos quase fálicos em se tratando de cultura americana, e é em uma dessas caçadas que Chris encontra A Mulher do título, tomada como objeto de caça (literalmente), a selvagem é vista sob a ótica subjetiva de Chris, ao mesmo tempo como um objeto sexual e uma ameaça à ordem natural das coisas do universo diegético, que pode ser exagerado, mas nunca fantasioso (tendo em vista o conceito patriarcal e machista que ainda reina em nossa sociedade), e o objetivo de Chris ao caçá-la é civilizá-la (leia-se: domesticá-la), e colocá-la sob o mesmo jugo de todas as outras mulheres do mundo (ou pelo menos, de sua família).

‭A trilha sonora, composta integralmente pelo músico Sean Spillane, é correta e contém pelo menos uma composição memorável, Patient Satellite, incluída em um momento tenso e crucial da trama e que funciona bem também fora do filme. Entretanto não posso deixar de dizer que ficarei eternamente curioso em saber como seriam as composições da talentosíssima parceira de McKee, Jaye Barnes-Luckett, habitual companheira em seus filmes. Na composição dos personagens, Sean Bridgers fornece uma atuação correta, dosando a frieza e a violência de seu personagem com naturalidade, enquanto Pollyanna McIntosh traz toda a selvageria para seu personagem que forma surpreendentemente um caráter tridimensional, assim como todos os membros principais da trama, revelando também um cuidado na direção de atores. Somente Angela Bettis, cujo trabalho admiro muito, tem pouca chance para brilhar, devido principalmente ao caráter reprimido de sua personagem, e ela acaba incluindo infelizmente alguns maneirismos pontuais que desapontam. 
‭Desbancando para o sangrento e o imprevisível no terceiro ato, McKee pode até desagradar ao oferecer várias sequências absurdas em texto e contexto, mas é inegável que consegue atingir o espectador em todos os níveis, e um horror bem filmado e com forte comentário social como este se torna obrigatório para o gênero.



Curiosidades:
  • O livro "The Woman" foi lançado coincidentemente com o filme. De autoria de Jack Ketchum e Lucky McKee;
  • Chris Cleek repetidamente utiliza a palavra "anoftalmia" em referência a uma de suas filhas. Esse termo descreve a ausência congênita de um ou dos dois olhos humanos. 

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O Albergue

O Albergue (Hostel, EUA, 2005)
Diretor: Eli Roth
Elenco: Jay Hernandez (Paxton), Derek Richardson (Josh), Eythor Gudjonsson (Olin), Barbara Nedeljakkova (Natalya), Jana Baderabkova (Svetlana), Jennifer Lim (Kana), Keiko Seiko (Yuki), Rick Hoffman (Cliente Americano), Zigo Patrik (Líder da gangue infantil), Petr Jans (Cirurgião Alemão), Takashi Miike (Miike Takashi), Paula Wild (Monique).
SINOPSE: Três mochileiros em viagem pelo leste europeu em busca de sexo e diversão se deparam com um estranho albergue na Eslováquia e a promessa de mulheres fáceis, mas acabam encontrando um local de tortura e violência.





"Bem-vindo ao seu pior pesadelo"






Vindo do pequeno e genial Cabana do Inferno (2002), Eli Roth comandou, três anos depois, e com direito a apadrinhamento de Quentin Tarantino e participação especial de Takashi Miike, o filme que viria a se tornar referência no que se convencionou chamar pejorativamente de gênero torture porn, filmes de horror com muito, mas muito sangue, torturas e mutilações, tudo em um grau mais ou menos explicito, daí a infame alcunha. Poderíamos talvez inferir que o ganho em brutalidade nos filmes da última década se deve à diversas razões, como o contexto pós-11 de Setembro, bem como a dificuldade cada vez maior de se obter tramas originais, sobretudo dentro do gênero horror; mas talvez o subgênero não precise de ninguém que o defenda. Talvez seja preciso olhar mais para a natureza humana, que, para o bem ou para o mal, sente atração pela violência, em geral, felizmente, simulada em filmes ou coreografias. Porém se extrapolarmos para o gênero horror, onde o prazer é geralmente alcançado pela obtenção dos sentimentos mais horríveis que poderíamos sentir (medo, asco, calafrios, susto, tensão), aí é que teremos um prazer muitas vezes misturado com culpa, já que esse sadomasoquismo artístico é, ao mesmo tempo, inocente (já que é tudo "de mentirinha") e nos revela muito sobre nós mesmos. 
Buscando deixar desta vez as reflexões sobre o apelo do gênero de lado, e escrevendo sobre o filme, é inegável que O Albergue cumpre bem a sua função de despertar a mais diversa gama de sentimentos no espectador, e, se a maioria deles não é agradável, pelo menos o cineasta Eli Roth consegue estabelecer no seu filme, com a companhia do compositor Nathan Barr e do designer de produção Franco-Giacomo Carbone (ambos vindos do filme anterior de Roth) uma tensão crescente e um ritmo ágil à sua trama, contando ainda com a montagem do conhecidíssimo George Folsey Jr. (produtor de Um Lobisomem Americano em Londres e do clipe Thriller, de Michael Jackson) e dos efeitos práticos de maquiagem da KNB.
Provando ter carisma e talento suficientes para carregar um filme como esse, o ator Jay Hernandez interpreta o jovem Paxton, que junto com outros dois amigos (todos estereótipos americanos pós-adolescentes), estão viajando pela Europa em busca de drogas fáceis e muito sexo. Com a promessa atraente de um estranho homem, eles decidem partir para um recluso albergue na Eslováquia, onde nem tudo é o que parece e, após o desaparecimento de um dos amigos, tudo parece virar um inferno.
Ainda que se distanciando de filmes experimentais como os da serie japonesa Guinea Pig, Roth nos brinda com uma grande dose de violência a partir do segundo ato, pelo qual é feita uma transição muito sutil do besteirol (in)voluntário do início do filme para o horror de fato, estabelecendo um clima cada vez mais sufocante de tensão, e apresentando pelo menos uma boa sequência, que nos mostra o salvamento de uma das personagens no final do filme.
E para concluir, devo dizer que não é a primeira vez que assisti a O Albergue. E, guilty-pleasure ou não, o fato é que me diverti, sim, e obtive uma ótima experiência de catarse, e nesse sentido o filme funcionou muito bem.


sábado, 2 de fevereiro de 2013

Encarnação do Demônio


Encarnação do Demônio (Brasil, 2008)
Direção: José Mojica Marins
Elenco: José Mojica Marins (Josefel Zanatas – Zé do Caixão), Jece Valadão (Coronel Claudiomiro Pontes), Adriano Stuart (Capitão Oswaldo Pontes), Milhem Cortaz (Padre Eugênio), Rui Rezende (Bruno), Zé Celso (Mistificador), Lucy Pontes (Cristina Aché), Helena Ignez (Cabíria), Débora Muniz (Lucrecia), Thais Simi (Maíra), Cléo de Páris (Dra. Hilda), Nara Sakarê (Elena), Giulio Lopes (Mário), Eduardo Chagas (Emiliano), Luis Melo (Seu Américo), Raymond Castille (Zé do Caixão jovem).
SINOPSE: Após 40 anos preso, Zé do Caixão é finalmente libertado. De volta às ruas, o coveiro sádico está decidido a cumprir a meta que o levou à prisão: encontrar a mulher que possa gerar seu filho perfeito. Em seu caminho pela cidade de São Paulo, ele deixa um rastro de horror, enfrentando leis não-naturais e crendices populares. O filme encerra a trilogia clássica de José Mojica Marins. 


"O Sangue é Eterno"


Dizem que o maior erro do cineasta José Mojica Marins foi o de ao longo dos anos se confundir com sua maior criação: o personagem icônico Zé do Caixão. Talvez isso seja verdade, mas é inegável que este personagem deu força para que Mojica continuasse povoando a mente dos brasileiros e também do público internacional, mesmo com o seu grande hiato nas telas do cinema (seu último projeto do gênero como diretor foi o pequeno Perversão (1979)). E podemos dizer que a espera valeu a pena, pelo menos para o público fã de horror, que conseguiu finalmente conferir a parte final da trilogia que começou com À Meia Noite Levarei Sua Alma (1964) e Esta Noite Encarnarei no teu cadáver (1967).

A própria trama se confunde com o grande período de Mojica fora do cinema, já que se passa exatamente 40 anos após os eventos do último filme da série. Após um longo tempo trancafiado em uma penitenciária suja, Josefel Zanatas ou Zé do Caixão (Mojica) é libertado para desespero do diretor da cadeia, interpretado por um convincente Luis Melo. Desta vez solto nas ruas da capital paulista, Zé continua sua busca pela mulher superior que gerará seu filho perfeito, e que dará continuidade ao seu legado de morte. No caminho terá que enfrentar dois policiais, um padre em seu encalço e a ira dos fantasmas das vítimas anteriores de Zé.

Escrito por Mojica e Dennison Ramalho (do premiado e violento curta-metragem Amor Só de Mãe), o filme é caprichado tecnicamente, incluindo um crew bastante profissional, que se distancia dos primeiros projetos de Mojica, como a direção de arte vistosa de Cássio Amarante, que constrói muito bem o ‘quartel-general’ de Zé, a belíssima fotografia de José Roberto Eliezer e a trilha sonora enervante de André Abujamra e Marcio Nigro. Além disso, temos a maquiagem de efeitos de Kapel Furman (também presente no curta de Dennison) que não fica devendo nada aos americanos. Mesmo com um orçamento maior e uma técnica mais aprimorada, o longa mantém toda a tradição dos primeiros filmes, que vão desde o tom declamatório na maioria dos diálogos até a presença de insetos e o combate às crendices populares. E justamente nas atuações é que mora um dos problemas. Além de alguns atores serem bem inexperientes, temos o policial extremamente caricato interpretado por Adriano Stuart e a atuação insana de Milhem Cortaz, que ora funciona, ora não. O veterano Jece Valadão aparece bem, ainda que o triste fato de  seu falecimento tenha forçado mudanças no já frágil roteiro; também temos as já citadas declamações que soam muitas vezes anti-climáticas e por vezes constrangedoras. Já as cenas de tortura são, no geral, gratuitas e remetem diretamente ao subgênero torture-porn, algo que não é um elogio nesse caso, mas Mojica ganhou finalmente o merecido encerramento de sua trilogia, e a fecha de maneira satisfatória, com direito a uma edição em DVD recheada de materiais extras distribuída pela Fox Film. E como o plano contra-plongée de Zé do Caixão numa cena do filme sugere, ele ainda está em uma posição bastante superior no nosso cinema de gênero, ainda que para essa continuação aspectos desastrosos como o machismo que permeia todo o filme, além dos diálogos expositivos e mal escritos tenham prejudicado bastante o longa, que foge bastante das propostas originais dos primeiros dois filmes de Mojica.

Curiosidades:
  • Alguns dos papeis dos filmes foram interpretados por atores com pouca ou nenhuma experiência;
  • A cena na qual ocorre a suspensão de um policial por meio de ganchos cravados em suas costas foi feita por um performer de body modification, ou seja, a cena foi real, sem maquiagem envolvida. 

 

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Combo "Hellraiser" I e II

Hellraiser - Renascido do Inferno (Hellraiser, Inglaterra, 1987)
Direção: Clive Barker
Elenco: Andrew Robinson (Larry), Clare Higgins (Julia), Sean Chapman (Frank), Robert Hines (Steve), Ashley Laurence (Kirsty), Oliver Smith (Frank Monstro), Frank Baker (Andarilho), Gay Baynes (Evelyn), Doug Bradley (Pinhead), Nicholas Vince (Cenobita "Chatterer"), Simon Banford (Cenobita "Butterball"), Grace Kirby (Cenobita "Fêmea"), Sharon Bower (Enfermeira), Raul Newney (Médico).
SINOPSE: Larry e Julia mudam-se para uma velha casa. Lá, Julia descobre uma horrível criatura que na verdade é Frank, irmão de Larry e antigo amante de Julia. Frank perdeu seu corpo humano para os cenobitas, demônios do prazer e da dor. Uma gota de sangue desperta Frank, que força sua antiga amante a trazer vítimas para que ele possa novamente reconstituir seu corpo. 







Hellraiser II - Renascido do Inferno (Hellbound - Hellraiser II, EUA/Inglaterra, 1988)
Direção: Tony Randel

Elenco: Clare Higgins (Julia), Sean Chapman (Frank), Kenneth Cranhan (Dr. Channard), Ashley Laurence (Kirsty), Imogen Boorman (Tiffany), Kyle (William Hope), Doug Bradley (Pinhead), Nicholas Vince (Cenobita "Chatterer"), Simon Banford (Cenobita "Butterball"), Barbie Wilde (Cenobita "Fêmea").
SINOPSE: O doutor Channard (Kenneth Cranhan) passou toda uma vida estudando os segredos da caixa enigmática que abre as portas do inferno do prazer e da dor. Ele está disposto a conhecer o reino do sadomasoquismo, mas algo muito pior o espera.





"Ele irá destruir sua alma"

Clive Barker é um escritor diferenciado. Nascido na Inglaterra, Barker começou escrevendo peças e fazendo curtas em preto-e-branco, na companhia de amigos incluindo Doug Bradley, que se tornaria um ícone do horror interpretando o líder cenobita Pinhead. Mais tarde, Barker  lançou a antologia de contos Books of Blood (Livros de Sangue), que fez relativo sucesso na Inglaterra e nos Estados Unidos, sobretudo depois que Stephen King os elogiou dizendo que "viu o futuro do horror e seu nome era Clive Barker". Dono de um estilo único, misturando horror em ambientes urbanos aliados a temas como sadomasoquismo, sexualidade descontrolada e violência explicita, chamou a atenção do produtor Christopher Figg, que com um orçamento de 900 mil dólares produziu, com Barker na direção, o primeiro Hellraiser, que se tornaria um grande sucesso de público e crítica, baseado em seu romance The Hellbound Heart.

O filme conta a história do casal Julia e Larry (Clare Higgins e Andrew Robinson), que se mudam para uma velha casa, propriedade de Larry. Chegando lá, Julia encontra em um dos quartos uma criatura estranha e grotesca, que se mostra ser Frank (Sean Chapman), irmão de Larry e antigo amante de Julia. Ele é "desperto" depois que Larry sofre um corte na mão e seu sangue é absorvido pelo chão. Frank que conta que seu corpo havia sido destruído pelos cenobitas, demônios das profundezas do prazer e da dor, depois que Frank abriu uma misteriosa caixa. Julia aceita atrair homens como vítimas de modo que Frank possa usar o sangue deles para reconstruir seu corpo e fugir com Julia.


Nesse meio tempo, a filha de Larry, Kirsty (a gatíssima Ashley Laurence) acaba descobrindo o segredo de Julia e roubando a caixa, libertando acidentalmente os cenobitas. Eles são constituídos pelo líder Pinhead, que tem o rosto cheio de pregos, uma mulher com a garganta rasgada por ganchos, uma criatura baixa e gorda, com óculos cravados no rosto (Butterball) e outra com a mandíbula exposta, cujos dentes batem constante e apavorantemente. Eles querem levá-la a experimentar o mundo de prazer e dor, mas Kirsty faz um trato prometendo-lhes entregar Frank em seu lugar. O primeiro Hellraiser conta uma história original e surpreendente, pecando em alguns detalhes técnicos como a fotografia, mas compensando com sua história e sua maravilhosa maquiagem prática, que deixa saudades devido ao uso excessivo de trucagens de computador, que na maioria das vezes fica devendo diante da maquiagem prática.


"Sem lágrimas por favor. É desperdício de bom sofrimento."

Hellraiser II começa exatamente de onde parou o primeiro. Kirsty foge junto com seu namorado e vai parar em um hospício, onde é tratada pelo médico Channard (Kenneth Cranhan), que parece esconder um segredo relativo à caixa e aos demônios do primeiro filme. O médico consegue reviver Julia (Clare Higgins), utilizando o sangue de um interno (uma cena perturbadora e chocante, pelo modo como foi filmada, explicitamente, mostrando um excelente trabalho de maquiagem), que lhe promete o que o doutor sempre quis: conhecer essa nova dimensão que tanto estudou. Kirsty e uma interna especialista em decifrar enigmas acabam parando também nessa dimensão, onde estão novamente os cenobitas e muitos outros horrores.

O segundo filme não decepciona e é continuação digna do original. Desenvolve mais os personagens, mostra a origem de um dos cenobitas e ainda explora a ideia do “inferno”, ou seja, responde algumas das perguntas deixadas pelo primeiro filme. Além disso, mantém a qualidade na maquiagem, feita por Bob Keen (Candyman) que é extremamente realista, mesmo para os dias de hoje. No entanto, nem tudo são flores e o desfecho da continuação deixa muito a desejar, desfilando clichês e corre-corres, se tornando muito cansativo. Acaba sendo um bom filme, contudo.

Hellraiser: 




Hellraiser II: 

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