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quarta-feira, 23 de agosto de 2017

"Grave" (2016)

Grave (aka RAW, França/Bélgica, 2016)
Diretora: Julia Ducournau
Roteiro: Julia Ducournau
Produção: Jean des Forêts
Elenco: Garance Marillier, Ella Rumpf, Rabah Nait Oufella, Laurent Lucas, Joana Preiss, Bouli Lanners, Marion Vernoux, Thomas Mustin, Marouan Iddoub, Jean-Louis Sbille, Benjamin Boutboul, Anna Solomin, Alexis Julemont, Lich Jass, Charlotte Sandersen, Christophe Menier.
SINOPSE: Na família de Justine (Garance Marillier), todos os integrantes trabalham com a área veterinária e são vegetarianos. No entanto, assim que Justine pisa na escola de veterinária, ela acaba comendo carne. As consequência deste ano logo serão sentidas e chocarão toda a família.








“Teve um momento no qual pararam de falar sobre o meu filme e começaram a chamá-lo de 'o filme mais sangrento já produzido” diz ela.  “Disseram que era um filme feito para chocar, ou um torture porn, mas meu filme não está nem mesmo dentro da mesma família do cinema. Eu comecei a ler manchetes que não faziam o menor sentido. Manchetes dizendo ‘milhares de pessoas desmaiam nos cinemas’. Me desculpe, mas acho uma besteira. É uma pena porque algumas pessoas podiam ficar assustadas em ver o filme, quando poderiam ter aguentado numa boa. E outras pessoas que acabavam esperando por um torture porn vão acabar se desapontando.”


            O trecho que abre esta crítica faz parte de uma entrevista que Julia Ducournau, cineasta que literalmente ‘causou’ nos Festivais ano passado, e nem tanto por ter ganho o prêmio da crítica (FIPRESCI) no Festival de Cannes, mas sobretudo por ter causado desmaios em uma determinada sessão de seu longa-metragem no Festival de Toronto em 2016. Embora tal evento tenha soado como uma propaganda não intencional para que um filme talvez restrito ao circuito de arte atingisse maior atenção do público médio, por outro lado tira em parte o grande mérito deste longa ser muito superior a um mero shocker. Então vamos ao filme.
            Imagine você, uma jovem mulher nos seus dezesseis anos, virgem e recatada, com uma mãe supercontroladora, que decide até mesmo o que vai no seu prato, tendo que cursar a faculdade que seus pais tomaram como profissão, com uma irmã mais velha já veterana no mesmo curso, tendo ainda que passar por uma pesada semana de trote, com professores no seu pé, não tendo nem onde dormir direito, e sendo obrigada a passar por situações como comer fígado de coelho cru, cortesia dos veteranos… Pois é, uma barra bastante pesada para alguém que está saindo da adolescência para enfrentar a vida adulta. E olha que eu nem mencionei canibalismo…
            Grave (mais conhecido por seu título americano, Raw) é o longa de estreia da francesa Ducournau, que se distancia de seus compatriotas de gênero, como Alexandre Aja e Alexandre Bustillo ao investir muito mais em símbolos do que num gore gratuito, embora fique claro, conforme o filme avança, que Ducournau se mostra interessada em discutir questões relacionadas ao corpo (na montagem que faz paralelos com os corpos dos animais, ou na bela cena na qual Justine conversa com uma enfermeira no ambulatório da faculdade), prestando reverência explícita ao body horror dos primeiros trabalhos de David Cronenberg.
            Contando com um mise-en-scène impecável, Ducournau combina com maestria o formalismo estético de uma câmera estática a um naturalismo extremo, com destaque para o trabalho de maquiagem hiper-realista (que não esconde nenhuma mordida, ferida ou arranhão do público) do mago Olivier Afonso, digno de vários prêmios; aí entrando também as atuações do elenco principal, sobretudo da protagonista Marillier, que já em seu primeiro longa consegue transmitir todo o medo e a ansiedade de sua personagem Justine muitas vezes apenas com o olhar. Olhar este que descobre o mundo através do instinto, sem pudores, da atração sexual, do apetite voraz, de seu próprio corpo, de seu próprio lado negro.
            Funcionando em vários níveis (do filme de passagem à vida adulta, passando por questões do que é ser humano) Grave termina com um desfecho elegantemente aterrador, digno dos melhores exemplares do gênero, provando não só o talento de Ducournau, como também mostrando que o gênero não deve se privar de cérebros…
           





Trailer legendado:

terça-feira, 6 de junho de 2017

Sereia Predadora (2016)

Sereia Predadora (SiREN, EUA, 2016)
Diretor: Gregg Bishop
Roteiro: Luke Piotrowski e Ben Collins
Produtores: Gary Binkow, Jude S. Walko, Brad Miska
Elenco: Chase Williamson, Hannah Fierman, Justin Welborn, Hayes Mercure, Michael Aaron Milligan, Brittany Hall, Randy McDowell, Lindsey Garrett, Stephen Caudill, Ava Atwood, Patrick Wood, Angel Jager, Blair Redford.
SINOPSE: Uma despedida de solteiro se torna um pesadelo quando o noivo Jonah liberta o que parece ser uma garota inocente presa em uma boate. O implacável captor e proprietário da boate fará de tudo para recapturar seu troféu. Jonah se esforça para resgatar a garota, apenas para descobrir que é ele quem precisa de resgate, pois a garota é, na verdade, um perigoso predador descrito em fábulas, que o vê como um prêmio. Baseado no segmento "Amateur Night" do filme "V/H/S".






"Nenhum homem consegue resistir a ela. Todos deveriam..."

            Algumas coisas funcionam melhor no formato de curta metragem. Foi assim com V/H/S (2012), uma esperta empreitada independente, que além de servir como vitrine para jovens cineastas do gênero horror, ainda se valeu de uma apresentação facilmente consumível pelo espectador médio. A antologia, que já conta com duas sequências, apresentava contos de horror de curta duração com algum fio condutor em comum, apenas para ligar as histórias. Entre péssimos e bons segmentos, no primeiro filme claramente um se destacava. Amateur Night, a primeira fita do longa se beneficiava de um ritmo ágil e do frenesi de uma câmera vacilante aliado ao arrepiante desfecho para atingir em cheio o espectador. Não demorou para que a ideia de um longa-metragem baseado no curta viesse à tona, e o resultado é este bom Sereia Predadora.
            Na trama Jonah (Williamson) é um homem bem noivado com Eva (Garrett). Quando parte para sua despedida de solteiro, o comportado noivo é levado para o mal caminho por seu irmão Mac (Milligan) junto com mais dois amigos, quando surge um misterioso convite para um clube secreto pra lá de esquisito, onde, é claro, coisa boa não vai acontecer. Chegando no tal lugar, Jonah encontra Lily (Fierman) busca libertá-la, acreditando que a “moça” estava no local.
            Feito de tantos erros quanto acertos, o longa dirigido por Gregg Bishop (V/H/S Viral), tenta expandir a mitologia sugerida no curta original ao criar elementos como a natureza sexual do relacionamento de Lily com suas vítimas, mas acaba perdendo tempo demais criando interação entre as vítimas os amigos, e lançando um sem-número de tramas paralelas com pouco objetivo na trama principal, inclusive gerando um efeito colateral de sentimento de empatia com aquela que seria a vilã do filme. Além disso, o alívio cômico representado pela figura do personagem Mac soa artificial e não funciona, aborrecendo com frequência.
           
Por outro lado, o roteiro cheio de situações nunca deixa o longa cair no tédio, que com duração enxuta mantem o interesse do espectador, criando ainda boas sequências de tensão, como quando os amigos entram na boate underground, ou durante a fuga de Lily. O design da criatura, fiel ao estilo original, continua perturbador e capaz de gerar bons pesadelos. E até mesmo o elenco, que é bastante ruim aqui, acaba funcionando justamente por remeter a uma estética e um jeitão de filme B, que lembra em alguns momentos filmes como Olhos Famintos, e que funciona muito bem, sobretudo no arrepiante e ominoso desfecho. Não é um novo clássico, mas é um horror puro sangue.

 

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Demônio de Neon (2016)

Demônio de Neon (Neon Demon, EUA/Dinamarca/França, 2016)
Direção: Nicolas Winding Refn
Roteiro: Nicolas Winding Refn, Mary Laws, Polly Stenham
Produção: Lene Børglum, Sidonie Dumas, Vincent Maraval
Elenco: Elle Fanning, Karl Glusman, Jena Malone, Bella Heathcote, Abbey Lee, Desmond Harrington, Christina Hendricks, Keanu Reeves, Charles Baker, Stacey Danger, Jamie Clayton, Rebecca Dayan, Rachel Dik.













            Fazer comparações com os trabalhos anteriores de Nicolas Winding Refn é inevitável quando assistimos a Demônio de Neon, mais recente longa do cineasta dinamarquês conhecido por sua direção virtuosa, que lhe rendeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2011, pelo filme Drive.
            Demônio de Neon apresenta um roteiro (escrito à seis mãos) simples e rapidamente identificável. Nele, somos apresentados a Jesse (Fanning) uma adolescente de beleza única, que aporta em Los Angeles vindo sabe-se lá de onde, e rapidamente chama a atenção de figurões da indústria da moda, fazendo com que ela obtenha rapidamente uma escalada ao sucesso das modelos, e junto com isso também desperte a inveja de outras beldades (Heathcote e Lee), bem como outros tipos de interesse na maquiadora Ruby (Malone). Pronto. É isso. Se o espectador provavelmente já viu algum filme ou produto audiovisual com uma trama parecida com a descrita acima, não é a novidade narrativa que traz algum frescor a Demônio de Neon, mas sim o estilo do diretor Refn, que faz com que uma historinha simples e manjada (a exemplo de Drive, vale lembrar) ganhe um novo valor quando transposta para a linguagem audiovisual. Aqui não é diferente. Visualmente deslumbrante, seu novo longa parece ter sido concebido para ter cada um de seus planos emoldurado e exibido em uma galeria de arte, tamanha perfeição da mise en scène construída pelo diretor. Reparem, por exemplo, na cena em que Jesse encerra um desfile como destaque da coleção, e o jogo de cores (vermelho/azul) e formas, é responsável por criar um ponto de virada decisivo para a personagem. Aliás, assim como naquele filme de 2011, novamente Cliff Martinez retorna como compositor e faz mais uma vez uma trilha sonora impactante, repleta de arranjos eletrônicos.
            Porém aqui alguns problemas saltam aos olhos. Ignorando qualquer interesse sobre suas personagens, o filme se limita a delineá-las de maneira rasa, unidimensional, sem qualquer subtexto, aliás, criando a impressão de que as atrizes e atores do filme não passam de objetos de cena, não criando identificação alguma com o espectador. O filme ainda é cheio de cenas que, enquanto metáfora ou alegoria, falham ao exercer algum sentido na trama, como aquela que mostra uma onça dentro do quarto de Jesse. Outras dessas cenas soam apenas de mau gosto, como aquelas que envolvem abuso sexual e necrofilia.
        
    E já que não há como analisar de maneira profunda o trabalho do elenco do filme, resta avaliar alguma possível intenção de crítica que o longa possa oferecer. E nisso a meu ver Demônio de Neon também fica devendo. Parecendo em diversos momentos criticar a indústria da moda, da fama, e da beleza superficial, o filme acaba sendo vítima do próprio discurso que tenta veicular. Afinal, basta ver, entre outros aspectos, que Refn alimenta o próprio ego ao colocar nos créditos iniciais suas próprias iniciais, como se afirmasse: Ei, este é um produto da grife N.W.R. Ao que parece, a autoindulgência faz mais uma vítima. 


sexta-feira, 24 de março de 2017

As Fábulas Negras (2014)

As Fábulas Negras (Brasil, 2014)
Diretores: Rodrigo Aragão, José Mojica Marins, Joel Caetano, Petter Baiestorf
Elenco: Hugo Firme Fraga, Diego Fernandes, Arthur Medeiros, Arthur Marcel, Carol Aragão, Milena Bessa, Walderrama dos Santos, Tiago Ferri, José Mojica Marins, Markus Knoká, Ana Carolina Braga, Cesar Souza, Eldon Gramlich, Daniel Boone, Margareth Galvão, Kika Oliveira, Reginaldo Secundo, Marcia Coqueiro, Mayra Alarcón, Dora Dadalto, Alicia Moreira, Sara Lima, Fonzo Squizzo, Giovanni Coio, Elias Aquino, Foca Magalhães e Alzir Gabriel Vaillant. 
SINOPSE: Um grupo de crianças embarca numa aventura macabra povoada com personagens do imaginário popular brasileiro – lobisomem, bruxa, fantasma, monstro e Saci. Com o encontro antológico entre quatro dos nomes mais importantes do terror nacional: Rodrigo Aragão, Petter Baiestorf, Joel Caetano e José Mojica Marins, o eterno Zé do Caixão.




Um Banho de Sangue no Folclore Brasileiro






            Como observa a pesquisadora Laura Loguercio Cánepa em sua tese Medo de quê? - Uma História do Horror nos Filmes Brasileiros (Campinas, 2008), causa estranheza que numa cultura de fantasia rica como a brasileira – cheia de mitos, lendas, um belo folclore, superstições e religiosidades – o cinema, ou a ficção de horror nunca tenha alcançado a popularidade como ocorre em outros países, mesmo com o espectador de cinema brasileiro um dos que mais consome horror (vindo de fora). Sem querer entrar nos vários motivos que levaram a essa situação, pode-se dizer que somente com o cineasta José Mojica Marins, em 1963, com o icônico À Meia-Noite Levarei sua Alma, o gênero finalmente ganhou as telonas brasileiras, mas ainda assim, somente nas duas últimas décadas é que ele voltou com força, através da coragem de realizadores que com pouca grana (ou mesmo nenhuma) fez com que o cinema de horror alcançasse até mesmo festivais mundo afora. Estou falando de nomes como Dennison Ramalho, Petter Baiestorf, Rodrigo Aragão, Joel Caetano, Felipe M. Guerra, nomes que os aficionados brazucas com certeza devem conhecer.

            Dentre esses nomes, um dos mais prolificos desses realizadores, o capixaba Aragão, fez algo de se admirar em 2014. Reuniu alguns nomes dessa galera do mal (incluindo Mojica) para dirigir uma antologia que, para todos os efeitos, se torna um marco na virada do gênero que vai render muito ainda em nosso cinema – As Fábulas Negras. Dividido em cinco histórias, o longa explora algumas lendas brasileiras, subverte outras e ainda cria algumas, que como toda antologia, padece de irregularidade entre uma história e outra, mas ganha na agilidade, pois rapidamente passamos de um conto ao próximo. Entre os curtas, quem guia o roteiro são quatro meninos que, enquanto brincam e percorrem uma mata, vão assustando-se com suas imaginações e causos que contam uns para os outros.Vamos a eles:
            O Monstro do Esgoto – Rodrigo Aragão: Um caricato prefeito corrupto desvia verbas do saneamento básico da cidade que administra, sem saber o monstro – literalmente – que acaba criando. Do ponto de vista técnico, o primeiro segmento é muito competente: A direção de Rodrigo Aragão não é engessada e explora diferentes ângulos de câmera e recursos cinematográficos como pouco se vê no cinema amador. O elenco, no entanto, fica devendo, sendo em sua maioria bastante amador, bem como o roteiro que contém alguns diálogos e situações pouco inspiradas. O gore rola solto, e a maquiagem e os efeitos visuais são realistas a ponto de virar o estômago, efeitos usados aqui sem a menor parcimônia. (***)
            Pampa Feroz – Dirigido por Petter Baiestorf: Uma releitura da lenda do Lobisomem, numa fazenda do Sul do País. Avaliação: Todo aquele lance da armadura parece deslocado de sentido na trama, bem como a trilha sonora que acompanha o momento em que o personagem a apresenta, mas tirando isso, é o curta mais interessante, inclusive do ponto de vista de elenco, apresentando atuações homogeneamente profissionais e competentes, numa nova versão da lenda do lobisomem. O animatrônico do lobisomem é muito bom e a maquiagem igualmente competente (****)
            O Saci – José Mojica Marins: Uma menina filha de pais religiosos sempre recebe o aviso de um velho pai de santo para respeitar as criaturas da floresta enquanto caminha por ela. Avaliação: O design da criatura que representa o saci, com seus olhos arregalados e boca arreganhada, é sinistríssimo e realmente assusta. Ainda conta com uma participação mais que especial do diretor José Mojica Marins e nudez gratuita para ninguém botar defeito. Em seu desfecho consegue até mesmo abrir espaço para uma interpretação mais psicológica. (****)

            A Loira do Banheiro – Joel Caetano: Mais uma releitura, desta vez do mito que assustou toda uma geração dos banheiros escolares nacionais: A Loira do Banheiro. Avaliação: Contando com um prólogo eficiente, observa-se que Caetano também possui grande noção de técnica cinematográfica, extraindo boas atuações de seu elenco, bem como uma visualização espacial bastante inteligente. Alguns elementos, como o personagem de Hugo, funcionário deformado do internato, remetem diretamente à época dos filmes góticos, de castelos malditos e bruxaria. Maquiagem também bem boa. (****)
            A Casa de Iara – Rodrigo Aragão: Novamente Aragão na lista na história que encerra o filme, sobre uma mulher traída que encontra um meio pouco ortodoxo de vingança. Trama bastante súbita, acaba não deixando espaço para um envolvimento com os personagens, em detrimento de um belo visual (**).

            Contando com mais acertos do que erros, As Fábulas Negras entretém enquanto cinema de horror, e quantas vezes você leitor já teve experiência parecida.


quinta-feira, 28 de julho de 2016

Planeta Terror (2007)

Planeta Terror (Planet Terror, EUA, 2007)
Direção: Robert Rodriguez
Roteiro: Robert Rodriguez
Elenco: Rose McGowan (Cherry Darling), Marley Shelton (Dr. Dakota Block), Freddy Rodriguez (El Wray), Bruce Willis (Tenente Muldoon), Michael Biehn (Xerife Hague), Josh Brolin (Dr. Block), Rebel Rodriguez (Tony Block), Jeff Fahey (J.T.), Naveen Andrews (Abby), Julio Oscar Mechoso (Romy), Fergie (Tammy), Nicky Katt (Joe), Hung Nguyen (Dr. Crane), Cecilia Conti (Paramedica Cecil), Tommy Nix (Paramedico Nixon), Tom Savini (Policial Tolo), Carlos Gallardo (Policial Carlos), Skip Reissig (Skip), Electra Avellan (Babá 1), Elise Avellan (Babá 2), Quentin Tarantino (Estuprador 1), Gregory Kelly (Estuprador 2), Troy Robinson (Soldado), Felix Sabates (Soldado), Danny Trejo (Machete/ trailer Machete), Cheech Marin (Padre/Trailer Machete).
SINOPSE: O casal de médicos William (Josh Brolin) e Dakota Block (Marley Shelton) é surpreendido no hospital por uma multidão de homens e mulheres cheios de feridas e mutilações, que vagam com um suspeito olhar perdido. Entre eles está Cherry (Rose McGowan), uma dançarina de boate cuja perna foi arrancada num ataque noturno. Com uma metralhadora no lugar da perna decepada, ela vai liderar, acompanhada por El Wray (Freddy Rodríguez), um exército de inválidos assassinos.


Embora possamos afirmar que o projeto Grindhouse, dos cineastas Quentin Tarantino e Robert Rodriguez, não tenha atingido seu objetivo original - incluindo aí um baixo desempenho nas bilheterias - é igualmente inegável que a parceria, ao mesmo tempo ambiciosa e simples em seu conceito, foi capaz de ser vitrine de boas ideias, demonstradas através dos trailers falsos que permeavam os dois longas na proposta original (alguns dos quais viraram longas), e também a produção de dois filmes no mínimo interessantes. Prestando homenagem ao cinema drive-in e ao gênero exploitation em específico, Planeta Terror é também uma revitalização do subgênero zumbis, uma vez que seu roteiro original foi escrito anos antes da explosão que os mortos-vivos tiveram nos anos 2000. Filmado em película e com um trabalhoso processo de deixá-lo com aspecto de filme antigo e danificado, o longa-metragem de Rodriguez também leva a sério a forma independente de se fazer cinema, com Rodriguez assinando, além da direção, o roteiro, montagem, música, supervisão de efeitos especiais e direção de fotografia, além da operação de câmera (ufa!). O controle sobre todo o processo ajudou a transformar Planeta Terror num produto autoral e que funciona bem, mesmo se desvencilharmos a obra de Grindhouse.

Apresentando-nos primeiramente aos personagens antes de qualquer desenvolvimento, a trama, que se passa no Texas, é centrada na dançarina de boate Cherry (McGowan), que, após pedir demissão e sofrer um acidente na estrada, vai afogar suas mágoas na churrascaria de J.T. (Fahey), onde encontra por acaso o misterioso Wray (Rodriguez) com quem teve um caso mal resolvido no passado. Nesse meio tempo Abby (Andrews), um engenheiro bioquímico, parece ter negócios muito escusos com um batalhão de soldados liderado pelo Tenente Muldoon (Willis). Ainda há espaço no roteiro para uma nada saudável relação de casal entre a anestesista Dakota (Shelton) e o Dr. Block (Brolin), e para policiais nada eficientes (Biehn, Savini e Gallardo). Todos se veem em apuros quando uma invasão de zumbis se propaga na cidade, devido ao vazamento de um estranho gás no início do filme. Diante disso, os personagens acabam se unindo para achar a cura e destruir os zumbis que aparecerem no caminho.
Embora a trama acima não pareça apresentar nada de novo, e se o excesso de personagens não permite que nenhum deles seja desenvolvido com mais cuidado, o cineasta Rodriguez recheia o roteiro de situações hilárias e de diálogos impagáveis, além de conferir uma ótima fluidez através da montagem que também presta homenagem às produções antigas. E para dar vida a personagens que soam propositadamente como caricaturas, o elenco não poderia ser melhor, destacando-se a boa química entre McGowan e Rodriguez, bem como a divertida atuação de Fahey que acaba criando o papel mais querido do longa. Ainda há elementos tão exagerados, como uma metralhadora no lugar de uma perna amputada, que não funcionariam caso o longa se levasse a sério.

Prestando atenção igualmente ao gore, Rodriguez também não decepciona quando o assunto são nojeiras, destacando-se nesse aspecto a carnificina que ocorre no hospital local. E se o terceiro ato do longa acaba soando arrastado, em sua maior parte Planeta Terror é um daqueles filmes simples e propositadamente ruins cada vez mais raros, mas que justamente em função de sua auto-indulgência é capaz de proporcionar um excelente entretenimento para fãs de horror.


terça-feira, 29 de março de 2016

Cabana do Inferno (2016)

Cabana do Inferno (Cabin Fever, EUA, 2016)
Diretor: Travis Z
Elenco: Gage Golightly, Matthew Daddario, Samuel Davis, Nadine Crocker, Dustin Ingram, Randy Schulman, George Griffith, Tim Zajaros, Aaron Trainor, Louise Linton, Laura Kenny, Derrick Means, Jason Rouse, Benton Morris, Teresa Decher.
SINOPSE: O filme começa quando um grupo de cinco amigos decide passar o fim de semana em uma casa na floresta. Planejando cerveja e farra, eles encontram um ermitão portador de um vírus que parece comer sua pele. O causador da doença, então, infecta alguns dos cinco, fazendo com que os sadios ajam com paranoia e hostilidade contra os doentes, criando o clima de suspense.









(Suspiros)...Remakes. Sempre que sai a notícia de que alguma refilmagem está sendo produzida os fãs das obras originais ficam em polvorosa. E na maioria das vezes com razão. O mais curioso nos últimos anos é a quantidade de refilmagens que vêm sendo produzidas, notadamente no gênero horror. Se a ideia de um remake per si já parece desnecessária, imagine então quando uma refilmagem se propõe a seguir exatamente o mesmo roteiro da obra original. Pior: A diferença entre o original e sua reimaginação é de apenas 12 anos. Ainda fica pior: aquela velha desculpa dos americanos de executar um remake por causa do idioma não há, já que ambos os filmes foram feitos em língua inglesa. Para piorar mais um pouquinho: A obra original não é considerada um clássico absoluto do gênero (embora este que vos escreva seja um grande fã).


Estou falando de Cabana do Inferno, que em 2002 lançou o nome de Eli Roth no mundo da sétima arte, rendendo bem nas bilheterias americanas e trazendo de volta uma pegada violenta e desbocada aos filmes de horror. Não por acaso, o filme gerou uma sequência e um prequel nos anos que seguiram e assentaram um terreno firme para que Roth continuasse desenvolvendo suas ideias em película.

Rapidamente, para quem ainda não conhece a trama: Cinco jovens amigos em férias da faculdade partem para uma remota cabana na floresta onde logo descobrirão que um estranho vírus se espalha entre eles, cuja infecção se dá pela esfolação da pele de dentro para fora. Conduzido pelo ilustre desconhecido Travis Zariwny (notado mais por seus trabalhos como design de produção), o longa segue basicamente o mesmíssimo roteiro escrito por Randy Pearlstein e Roth em 2002, incluindo os mesmos diálogos e a mesma estrutura narrativa. Curiosamente, as poucas mudanças escolhidas pelo novo diretor envolvem a retirada radical de todas as piadas e humor negro que permeavam o original, além da remoção de palavrões mais pesados e a inclusão de um didatismo irritante, que, aliás, vem se tornando uma constante em filmes do gênero atuais. Repare, por exemplo, na cena onde o grupo de jovens para num pequeno armazém antes de seguir para o chalé. No original, o dono, Velho Caldwell (nessa versão, substituído por um Novo Caldwell) alerta breve e casualmente os jovens com a frase: Se forem à floresta, tenham muito cuidado, ao que Karen responde: Por que, o que há na floresta?. E o assunto morria ali mesmo, com o dono da loja mudando subitamente de assunto, criando no público uma sensação de curiosidade e também mostrando um esperto uso de ironia de Roth, já que em 100% dos filmes de horror é óbvio que a floresta não representa lugar seguro. Já no remake, o personagem Caldwell dá praticamente uma aula sobre virologia aos jovens, alertando da maneira mais detalhada possível, acabando com qualquer mistério e recaindo num tom genérico.


Roteiro à parte, é justamente numa refilmagem que o diretor faz toda a diferença. Mesmo que Eli Roth venha derrapando filme após filme, é um realizador com estilo próprio e com genuíno tesão pelo gênero, fato que conferiu à sua versão uma identidade própria mesmo com todo o tom de homenagem daquele filme. Não somente, mas a maior parte daquele filme funcionava muito bem. A trilha sonora oitentista de Nathan Barr junto às composições do mestre Angelo Badalamenti, a maquaigem da KNB e o elenco carismático ajudavam, é claro. Em oposição, este filme conta com atores novatos que parecem aborrecidos em seus papeis, não trasmitindo emoção nenhuma e precisando constantemente demonstrar que estão atuando, usando diversas muletas de interpretação, como maneirismos com o rosto, caretas e poses diversas. A diferença no elenco resulta em personagens rasíssimos, enquanto no longa original eram, ao menos, bidimensionais e criavam empatia com o espectador.

Levando-se a sério demais, o remake ainda conta com sua trilha vários [vrammmmmsss] que fazem parecer que estamos assistindo a algo muito dramático e grandioso. Algumas das  composições de Kevin Riepl ainda tentam emular algumas das músicas do original, sem sucesso. Contando com uma estética que se assemelha exatamente a filmes de horror pós-2010, o filme continua assumindo uma pseudo-grandiosidade desnecessária, tentando conferir significado na montagem de videoclipe e na (falta de) caracterização de alguns personagens, como os caipiras que dessa vez são tratados como vilões potenciais homicidas desde o início da trama, em vez de apenas esquisitões como no outro filme.

Ganhando facilmente o rótulo de remake mais desnecessário da história (senão o pior), Cabana do Inferno levanta novamente a questão da necessidade real desse tipo de filme, quando nem a motivação caça-níquel é atendida.



quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Estranhas Metamorfoses (1983)

Estranhas Metamorfoses (Xtro, Inglaterra, 1983)
Direção: Harry Bromley Davenport
Elenco:  Philip Sayer (Sam), Bernice Stegers (Rachel), Danny Brainin (Joe), Maryam D'Abo (Analise), Simon Nash (Tony), Peter Mandell (Palhaço), David Cardy (Michael), Anna Wing (Sra. Goodman), Robert Fyfe (Médico), Katherine Best (Jane), Robert Pereno (Ben), Tok, Tik, Susie Silvey (Mulher na cabana).
SINOPSE: O garoto Tony tem seu pai levado por seres extraterrenos num disco voador e fica traumatizado com a experiência. Porém o pai de Tony volta à Terra três anos depois em forma extraterrestre e depois assume uma forma humana e tenta então se aproximar do garoto, e sua esposa, agora casada com um outro homem.






Uma estranhíssima trama de abdução alienígena repleta de imagens repugnantes sem, no entanto, atingir um resultado regular ao longo de sua projeção



Só tomei conhecimento de Estranhas Metamorfoses há poucos anos, através de um gif sinistro bem conhecido do público de horror na internet, que mostrava um plano em primeira pessoa de um carro cruzando uma estrada, enquanto uma criatura estranha passava em frente ao veículo. Intrigado pela perturbadora imagem, coloquei o filme devidamente na lista, demorei, mas finalmente saciei minha curiosidade em conferir esse longa britânico que pegou carona no sucesso de filmes como Alien, O Oitavo Passageiro (1979), O Enigma de Outro Mundo (1982) e até mesmo de E.T. - O Extraterrestre (1982).
O filme tem início numa casa de campo onde Sam (Sayer) e seu filho Tony (Nash) brincam com sua cadela Katie, quando, de repente, o céu escurece e Sam é aparentemente abduzido. Cortamos para o presente, três anos após o incidente, Tony vivendo com sua mãe (Stegers), o padrasto (Brainin) e a babá Analise (D'Abo). Tony sofre de recorrentes pesadelos envolvendo o desaparecimento do pai, e ninguém acredita na versão do garoto, já que apenas ele estava presente no momento da abdução, e pensam que o pai simplesmente decidiu sumir da vida deles. Logo, porém, Sam decide retornar para o filho e a esposa, após acontecimentos não menos que bizarros.
Possuindo nos seus primeiros vinte minutos uma qualidade que infelizmente não se repete durante o restante de sua duração, Estranhas Metamorfoses investe boa parte de seu primeiro ato no retorno de Sam, e isso envolve a única sequência realmente memorável do longa, com a aparente chegada de uma nave extraterrestre e sua queda numa mata fechada, seguida do surgimento de uma repugnante criatura quadrúpede (aquela que aparece no gif). O tal E.T. ainda deixa um rastro de sangue enquanto se prepara para inseminar uma vítima (cena que emula o facehugger de Alien) que gerará Sam numa gravidez em tempo recorde. Criando um certo nível de mistério, essa primeira parte é capaz até mesmo de gerar sustos bem eficientes no espectador, além das imagens repulsivas bastante convincentes no design da criatura.
Quando Sam finalmente reencontra sua família, torna-se claro que há algo errado com ele (como se não bastasse a forma como ele voltou a este mundo) e todos em volta de seu filho Tony correm perigo. Desse momento em diante, o diretor Davenport e os roteiristas Cassie e Smith parecem querer enfiar todas as suas ideias dentro do filme, mesmo que estas não tenham absolutamente nenhuma função narrativa. Abraçando com força o trash e o exploitation, a lógica visual do filme se resume em aborrecidos diálogos que versam sobre a repentina de volta de Sam e degringolam a relação entre sua esposa e o padrasto de Tony; nudez gratuita (da futura bond girl D'Abo) e cenas estapafúrdias, como aquela que mostra a perseguição de um personagem por um tanque de brinquedo e até mesmo por uma onça preta (de onde saiu o bicho, ninguém sabe). Flutuando com irregularidade entre a imaginação fértil do filho (que não tem relação alguma com a trama de abdução) e as tentativas de Sam em se aproximar da esposa e do filho com fins escusos, o filme vale a pena por atingir uma singularidade em uma década repleta de filmes similares, apesar do resultado altamente irregular.


quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O Enigma do Horizonte (1997)

O Enigma do Horizonte (Event Horizon, EUA/Inglaterra, 1997)
Direção: Paul W. S. Anderson
Elenco: Sam Neill (Dr. William Weir), Laurence Fishburne (Capitão Miller), Kathleen Quinlan (Peters, Técnica Médica), Joely Richardson (Tenente Starck), Richard T. Jones (Cooper), Jack Noseworthy (Justin), Jason Isaacs (D.J.), Sean Pertwee (Smith), Peter Marinker (Capitão John Kilpack), Noah Huntley (Homem queimado/Edward Corrick),  Holley Chant (Claire).
SINOPSE: O ano é 2047. Alguns anos atrás, a pioneira nave de pesquisa Event Horizon desapareceu sem deixar vestígio. Agora, um sinal foi detectado e o Comando Aeroespacial dos Estados Unidos responde. Em busca da origem do sinal está um destemido capitão (Laurence Fishburne), sua tropa de elite e o designer que projetou a nave perdida (Sam Neill). Sua missão: encontrar e resgatar a espaçonave de última geração. Mas o que eles encontram é o terror de última geração; o que eles têm que resgatar são suas próprias vidas, pois alguém, ou alguma coisa está prestes a envolvê-los em uma nova dimensão de pavor inimaginável. © Paramount





”Espaço Infinito. Terror Infinito”


Conrforme o dito popular, de boas intenções o inferno está cheio. Algo que literalmente se aplica a O Enigma do Horizonte, dirigido por Paul -Milla Jovovich- Anderson que só havia comandado antes desse filme a adaptação de Mortal Kombat (1995). Lembro que quando assisti ao filme pela primeira vez, achei a experiência frustrante devido aos elogios (de público) que qualificavam a obra como uma mistura que passava por Alien, Hellraiser e chegava até mesmo a 2001 e Solaris. Exageros à parte, a verdade é que a experiência de revê-lo foi ainda mais decepcionante, embora o longa tenha deixado um legado (vide Dead Space) que poderia ser potencialmente muito maior.


O enredo de Enigma se concentra em uma missão espacial de busca e salvamento encomendada por Weir (Sam Neill, canastríssimo aqui) com equipe liderada pelo Capitão Miller (Fishburne) que envolve a ida deles até a órbita de Netuno, de onde um sinal foi emitido, pertencente à nave Event Horizon, projetada por Weir e desaparecida há sete anos. O problema é que a tal nave não ficou sumida todo esse tempo à toa, já que o mecanismo do veículo envolvia viajar longuíssimas distâncias em espaços de tempo ínfimos usando o conceito da criação de portais através de dobras espaciais e buracos negros. Não é preciso muito para adivinhar que depois da "viagem" a nave agora mais se parece com um navio fantasma, e descobrir o destino da tripulação da Event Horizon é só o começo de uma perturbadora jornada para a equipe de Miller e Weir.

Tendo um design de produção arrojado que remonta ao mesmo tempo ao gótico e ao futurista, o filme lança mão de conceitos interessantes, como a nave em formato de cruz e outros símbolos religiosos, como as referências ao Inferno de Dante e ao próprio conceito de Inferno em si, contando inclusive com a consultoria de Clive Barker durante a pré-produção, deixando claro as influências do universo de Hellraiser no projeto. Além disso, a própria complexidade (inclusive científica) sugerida pela trama, utilizando atalhos no espaço-tempo e a viagem para outras dimensões é algo promissor, pena que quase tudo mal aproveitado pelo preguiçoso roteiro. 
 
E acaba ficando tudo na promessa mesmo. Até mesmo as tais perturbadoras cenas do que teria acontecido aos ocupantes da nave quando viajaram pelo tal portal ficaram em sua maioria na sala de edição, devido aos imensos cortes (mais de 20 minutos) feitos por exigência da MPAA (órgão de classificação de filmes nos EUA) por causa de seu conteúdo violento (cenas que nunca veriam a luz do dia, nem mesmo nas edições em home video). Ou seja, nem mesmo lidando com o gore o filme se sustenta, já que muito pouco impressiona. Pior ainda é quando o filme se leva excessivamente a sério, mesmo com seu atabalhoado roteiro, provocando o riso involuntário em algumas cenas. Destaque para o excesso de frases de efeito que rolam soltas durante a trama, a hilária troca de socos entre Miller e Pinhead-Weir no terceiro ato, e a trilha sonora eletrônica de Michael Kamen, que em vez de auxiliar na criação do suspense, remete mais a telefilmes baratos. Aliás, de todos os defeitos, o mais imperdoável deles é justamente esse. O longa não constrói minimamente o clima de suspense ou terror, provavelmente devido à direção frouxa de Anderson, que acreditou provavelmente estar dirigindo uma adaptação de videogame, com as quais, aliás, ficou acostumado.


 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

O Enigma de Outro Mundo (1982)

O Enigma de Outro Mundo (The Thing, EUA, 1982)
Direção: John Carpenter
Elenco: Kurt Russell, Keith David, Wilford Brimley, Donald Moffat, T. K. Carter, Richard Masur, David Clennon, Charles Hallahan, Richard Dysart, Peter Maloney, Joel Polis, Thomas G. Waites, Norbert Weisser, Larry J. Franco.
SINOPSE: O mestre do terror John Carpenter usa de efeitos especiais e muito suspensa nesta versão arrepiante do clássico O Monstro do Ártico. No verão de 1982, um time de doze pesquisadores trabalha numa remota estação na Antártica e descobre um ser alienígena submerso na neve há mais de 100.000 anos. Descongelada, a criatura mutante possui a habilidade de duplicar e se transformar em seu hospedeiro, matando-o em seguida e espalhando o terror. O problema é descobrir quem é ser humano e quem é o possível alienígena.







Pode parecer estranho hoje que um reconhecido clássico de gênero como Enigma do Outro Mundo possa um dia ter sido um fracasso. Mas é verdade. Lançado em 1982, o oitavo longa do mestre João Carpinteiro fracassou de cara nas bilheterias, em parte devido à estreia na mesma semana de outro clássico da ficção científica, Blade Runner – O Caçador de Androides, e em parte devido ao megassucesso de E.T. - O Extraterrestre, que mostrava alienígenas sob um ponto de vista bem mais otimista e amigável do que o longa de Carpenter, e que acabou arrebanhando o público familiar para os cinemas. Não só público mas também a crítica da época sentou a lenha no filme, que só ganhou o merecido reconhecimento após o lançamento em home vídeo e exibições na TV. Opiniões à parte, é inegável a influência desse trabalho em inúmeros outros exemplares de sci-fi horror, desde a construção lenta e gradual do suspense até a trilha sonora enervante e aos efeitos de maquiagem práticos usados aqui sem a menor parcimônia.



Podendo ser considerado ao mesmo tempo um remake de O Monstro do Ártico (1951) e uma readaptação do conto Who Goes There? (1938) de John W. Campbell, o roteiro de Bill Lancaster acompanha uma estação americana de pesquisa na Antártida que se vê ameaçada por uma estranha espécie parasita alienígena que assimila organismos vivos e os imita, criando uma cópia exata daquele, assim gerando uma atmosfera paranoica de quem é realmente humano entre aqueles homens.

Enigma se caracteriza quase como um exercício de gênero, e se sai naturalmente muito bem nesse sentido com a direção segura de John Carpenter. Não há preocupação em desenvolver a maior parte de seus personagens, já que vemos desde o início da trama MacReady (Russell) assumindo o destaque exclusivo da história, quando na primeira sequência é visto isolado do restante de sua equipe, e percebemos seu comportamento impulsivo, mas também de liderança, já que basicamente nenhum dos outros homens questiona suas ações ou suas ordens. Assim, a deficiência na caracterização daquelas pessoas não geraria no espectador a tão conhecida identificação, no entanto, não é o que ocorre, já que o roteiro acaba apostando bem na construção de paranoia e medo, conferindo curiosamente a cada personagem a mesma importância em dado momento do filme, já que qualquer um pode ser a coisa.



Além disso, Carpenter deita e rola com a maquiagem prática criada por Rob Bottin com colaboração da lenda Stan Winston, que confere ao longa um caráter grotesco, mas que nunca soa gratuito, aliando desespero e morbidez ao suspense instalado. Uma aposta corajosa que deu certo, se considerarmos que na maioria das vezes a construção do suspense, em se tratando de filmes com criaturas, consiste muito mais em esconder do que mostrar. A ambientação de isolamento é construída lenta e gradualmente, como em Alien – O Oitavo Passageiro, tendo como auxiliar principal a trilha quase onipresente de Ennio Morricone.

Independentemente de o longa funcionar ou não como alegoria, como aqueles que citam o filme no contexto da Guerra Fria, o fato é que Enigma do Outro Mundo funciona em vários níveis, do horror repulsivo ao thriller psicológico, algo cada vez mais raro no cinema de gênero atual.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Colinas de Sangue (2009)

Colinas de Sangue (The Hills Run Red, EUA/Bulgaria, 2009)
Diretor: Dave Parker
Elenco: Sophie Monk (Alexa), Tad Hilgenbrink (Tyler), William Sadler (Concannon), Janet Montgomery (Serina), Alex Wyndham (Lalo), Ewan Bailey (Sonny), Danko Jordanov (Babyface), Mike Straub (Gabe), Hristo Mitzkov (Jimbo), Raicho Vasilev (Babyface como ator), Itai Diakov (Babyface jovem).
SINOPSE: Você conhece a história. Aquela sobre a festa mais violenta e sanguinolenta de todas; aquela feita nos anos 80, mas misteriosamente perdida. Avance no tempo até hoje: jovens fãs do terror buscam por um lugar secreto onde o filme foi rodado, esperando encontrar pelas históricas cenas. Mas o que eles descobrem é que aquele épico banho de sangue é muito mais que um filme. É real. E agora eles são as mais novas estrelas "contratadas". © Warner Bros







O que o leitor procura quando vai assistir a um filme de horror de maneira descompromissada, buscando apenas diversão? Violência com muito gore e efeitos de maquiagem práticos, nudez gratuita, humor negro, tensão, mistério, um vilão original? Se isso bastar, então Colinas de Sangue, longa de 2009 distribuído diretamente para vídeo, cumpre bem o seu propósito de entreter o espectador, mesmo aquele menos chegado às convenções de gênero. Curiosamente, é justamente quando o longa tenta bancar o pretensioso é que se dá mal. Mas falemos disso mais adiante.

A ideia do longa, originada dois anos antes de sua concepção, a partir de um argumento original do diretor Dave Parker e até mesmo de um trailer falso, esperou um longo tempo até que a Warner, usando seu "selo independente" Warner Premiere (também responsável por Contos do Dia das Bruxas) embarcou no projeto e juntamente com a Dark Castle (produtora responsável por filmes como A Casa de Cera e Navio Fantasma) levantou um pequeno orçamento e contratou um elenco majoritariamente americano para a produção (o filme foi filmado na Bulgária) que teve contribuições no roteiro de David J. Schow (O Corvo, O Massacre da Serra Elétrica 3), John Dombrow (Vespas Assassinas) e John Carchietta.


De início bastante promissor e até mesmo empolgante, a trama segue o obstinado Tyler (Hilgenbrink), um jovem fanático por filmes de horror, em especial de um longa independente dos anos 80 que ganhou fama de amaldiçoado após ser banido nos cinemas após sua única exibição, devido ao seu conteúdo gráfico, junto com esse fato aparentemente todos da equipe e elenco, incluindo o diretor Concannon (Sadler), sumiram do mapa, e nenhuma cópia nunca foi encontrada. Tyler parte então em busca de Alexa (Monk), filha do diretor do filme perdido e que estava presente no trailer do filme, e descobre que a tal moça é stripper em um boate e viciada em drogas. Como que por milagre, o rapaz não só tira a moça daquela vida, como também a convence a partir com ele, sua namorada Serina (Montgomery) e seu melhor amigo fura-olho, Lalo (Wyndham) numa viagem com destino às locações onde ocorreram as gravações do filme maldito. Chegando lá, claro, algo indica que o filme não está finalizado e os jovens serão as mais novas estrelas a morrer pela arte.

Ao mesmo tempo em que o roteiro é esperto ao subverter algumas convenções de gênero, como aquela do assassino que nunca morre, mesmo quando atingido, ou outra em que um dos heróis tenta convencer o vilão, fingindo ser seu amigo; acaba demonstrando extrema fragilidade em vários pontos, principalmente a partir dos 60 minutos de projeção, quando se transforma numa confusa salada narrativa sem um pingo de ritmo. Pior: Ainda exibe enormes rombos de lógica interna e ainda tenta explicá-los através de flashbacks desnecessários e diálogos expositivos, que só não são mais constrangedores graças ao talento do ator William Sadler. Vale ainda a menção desonrosa à inserção, ainda que pontual, de um CGI grotescamente mal feito.



Entretanto, antes de desandar completamente o filme apresenta boas surpresas num elenco homogeneamente bom, exceto, talvez, pelo protagonista Hilgenbrink, que se revela um canastrão com suas caras e bocas e uma risada extremamente forçada. Por outro lado merece destaque a ótima sacada que ocorre na cena do acampamento. Pena que a partir desse ponto, pouca coisa consiga manter o interesse no longa, uma vez que aquilo que era até então um passatempo tenso e bem construído, se transforma num pretensioso metafilme que não chega a lugar algum. Se o espectador ignorar tais pontos e embarcar na divertida viagem, não deve se decepcionar, ainda que fique um sentimento de que o resultado poderia ser infinitamente superior caso o longa seguisse a premissa inicial.






Curiosidades:
  • Cinco latões com sangue falso, de 55 litros cada, foram usados na cena do trailer inserido no filme que mostra, literalmente, as colinas correndo sangue;
  • O diretor Dave Parker não conheceu o elenco até dois dias antes de começarem as filmagens;
  • O cenário da fazenda foi reaproveitado de outro filme;
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